Erro de laboratório farmacêutico causa mortes 

 O caso

 

    "Em meados de 2003, a população brasileira acompanhou, alarmada, o noticiário sobre a morte de mais de 20 pessoas após terem ingerido [um] produto [...] usado para fins de contraste em exames radiológicos.

 

    Esse produto, assim como outros, provenientes de fabricantes diversos, consiste essen­cialmente em uma suspensão de sulfato de bário em água. Embora os íons bário sejam ex­tremamente tóxicos ao organismo humano, a ingestão desta suspensão é inócua. [...] [Alguns] sintomas do envenenamento por bário são dores abdominais, diarreia, vómitos, náuseas, agitação, ansiedade, [...] crises convulsivas, coma. Como o sulfato de bário é pouquíssimo solúvel [...] em água e (fato importante) não se dissolve mesmo na presença de ácidos, passa pelo [sistema digestório] [...] e é eliminado juntamente com as fezes, sem que quantidade importante de íons bário seja absorvida pelo corpo. [...]

 

Radiografia sem a utilização de contraste radiológico. Note que apenas a estrutura óssea é visível.

Radiografia realizada após a ingestão de contraste radiológico (BaSO4). O contraste permite a visualização de parte do tubo digestório.

 

    Ao contrário do que vinha fazendo rotineiramente, ou seja, comprando o sulfato de bário já pronto [...], [um] laboratório farmacêutico resolveu sintetizá-lo a partir de carbonato de bário.

 

    Surgem aí duas outras perguntas: ‘O que levou o laboratório a tentar a fabricação de sulfato de bário?’ ‘Como pode haver erro em uma síntese, em princípio, tão simples, e que erro foi esse?’ [...]

    

    [...] noticiou-se que o laboratório farmacêutico não teria pago um lote de 61 comprado em fevereiro de 2002. Isto, com certeza, deve ter provocado o corte no fornecimento. Este corte, evidentemente, deve ter-se estendido por todos os possíveis fornecedores. [...]

 

    Segundo a imprensa, a síntese do sulfato de bário teria sido feita pela simples adição de ácido sulfúrico sobre o carbonato. [...] O que se sabe, pela análise feita no produto final, é que ele continha carbonato de bário. Em outras palavras, a reação do ácido com carbonato não foi completa. [...]

 

    Assim, ao ser ingerido o [contraste radiológico], na presença de ácido clorídrico no es­tômago a 37 °C, ocorreu dissolução de carbonato de bário liberando íons bário que, logo a seguir, foram absorvidos pelo trato intestinal levando ao envenenamento. [...]"

 

Fonte do texto: TUBINO, M.; SIMONI, ]. A. Química Nova. Volume 30, número 2,2007. p. 505-506. Disponível em: 

Acesso em: 3 mar. 2010.

 

Equilíbrio químico

 

    “[...] Sais como o sulfato de bário e o carbonato de bário são poucos solúveis em meio aquoso de pH neutro: aproximadamente 2,45 mg • L-1 (1,05 • 10 -5 mol/L) e 17,8 mg • L -1 (9,00 • 10 -5 mol • L -1), a 25 °C, respectivamente. O [contraste radiológico] é uma suspensão aquosa de sulfato de bário de concentração 1 g • ml -1 e a dosagem recomendada para adultos é de 30 m L.

 

    Considerando as baixas solubilidades citadas, em condições normais essa dosagem não seria suficiente para atingir a dose mínima letal de 2 a 3 mg de bário por quilo[grama] de tecido.

 

    Por que, então, a contaminação [...] com o carbonato de bário provocou a morte de um número significativo de pessoas? [...]

 

    O suco gástrico é constituído principalmente de ácido clorídrico, um ácido forte que oca­siona a solubilização do carbonato de bário [...]:

 

BaCO3 (s) + 2 HC (aq) Ba2+ (aq) + 2 C- (aq) + CO2 (g) + H20 ()

 

    Os íons Ba2+, ao entrarem em contato com as membranas celulares do trato digestivo, passam para a corrente sanguínea e alcançam todos os órgãos do corpo humano. [...] O mesmo não acontece com [...] uma suspensão de sulfato de bário, pois esta substância é pouco solúvel em meio ácido.

 

    Assim, [...] a morte de pacientes que fizeram uso do contraste [...] contaminado foi provo­cada pela solubilização do carbonato de bário presente e a consequente absorção do cátion Ba2+ pelo organismo.”

 

Fonte: SENE, J. J. et ai. Química Nova na Escola. Número 24, novembro, 2006. p. 43-45. Disponível em: <http://quimicanova.sbq.org.br/qn/qnol/2007/vol30n2/47-AG05484.pdf>

Acesso em: 3 mar. 2010.

 

QUESTIONÁRIO

 

1. De que forma as solubilidades diferentes de BaSO4 e BaCO3 em meio ácido foram impor­tantes para ajudar a entender o caso? Explique.

 

2. “O que se sabe, pela análise feita no produto final, é que ele continha carbonato de bário. Em outras palavras, a reação do ácido com carbonato não foi completa. [...]” Qual foi o erro, pensando em conceitos químicos já aprendidos por você, que ocasionou a "sobra" de massa de BaC03 ao final da reação?

 

3. Indique a proporção em mols entre reagentes e produtos na reação de carbonato de bário com ácido sulfúrico usada pelo laboratório para produzir o sulfato de cálcio destinado ao contraste radiológico. Especifique, no caso relatado no texto, qual foi o reagente limitante e qual foi o reagente em excesso.

 

4. Faça uma pesquisa sobre outros casos de envenenamento ocorridos nos últimos anos. Elabore uma tabela apresentando os casos escolhidos, explicando sua causa e analisando criticamente a situação.

 

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